200 metros para o Inferno

Veja a galeria com todas as fotos no final do artigo.

Este é o primeiro parágrafo de um artigo que escrevi 4 meses atrás. Ele ficou esquecido em meu computador porque depois que escrevi, o coronavírus que estava até então concentrado somente em Wuhan, se espalhou pelo mundo.

Por conta disso minha história perdeu importância diante de algo tão insano, mas voltou a ganhar força quando recebi a informação de que a trilha para o Vulcão Ijen, em Java, na Indonésia, voltou a funcionar no último sábado.

Achei que valia a pena retomar o ponto em que parei e compartilhar essa experiência.

Indonésia, 29 de fevereiro de 2020

[…]

Tentei dormir na noite anterior, mas assim que fechei os olhos, senti algo corroer pouco a pouco meu estômago. Não é todo dia que se faz uma trilha noturna em um vulcão em atividade.

A ansiedade tirou o meu sono na noite anterior, mas o que vi e senti dentro da cratera do vulcão Ijen, em Java, também me impediu de dormir direito nas duas noites seguintes.

A subida íngrime faz um senhor ao meu lado ofegar. Contei apenas dez passos antes de ouvir a primeira rajada de ar sair de seus pulmões.

Os grupos se distanciam. Eu, Dion – o guia que me acompanha – e sua lanterna, somos abraçados pelo breu. Os quase três quilômetros de subida são árduos e intensos. Nossas botas fazem rolar os pequenos pedregulhos de cascalho que cobrem o chão. A cada passo, o coração pega um trem expresso até a boca e volta.

A subida finalmente termina e começamos a andar por uma área plana. Mas sem tempo para recuperar o fôlego, somos atingidos por uma fumaça em forma de soco. Um cheiro podre e agressivo entra pelo nariz e se aloja na garganta. São quase três minutos de tosse.

É hora de colocar a máscara para se proteger do gás expelido pela montanha e seguir rumo a cratera, o coração do vulcão, 200 metros abaixo do ponto em que estamos.

Eu havia decidido fazer a trilha ao Kawah Ijen na semana anterior. Meu plano era fazer uma viagem de moto ao redor da ilha de Bali quando me deparei com uma foto deste lugar. Um lago azul-esverdeado paradisíaco no meio da cratera de um vulcão. Eu nunca havia subido um e vi na situação uma oportunidade única.

A trilha se inicia de noite porque dentro da cratera é possível ver o que eles chamam de “blue flames”, ou seja, chamas azuis. Um efeito natural gerado pelo gás que produz o enxofre, o sulfeto de hidrogênio. O choque do gás em temperatura entre 400 e 600 graus Celsius com o oxigênio da atmosfera, cria a combustão que origina as chamas. Quando está escuro é possível ver diversos rastros desse fogo azul descendo a encosta do vulcão.

Minha pesquisa relacionada a trilha foi simples. Como eu havia visto fotos de turistas, foquei somente em achar empresas que fizessem o passeio. As descrições nos sites eram simples e genéricas. Mostravam as “blue flames”, o lago, as pedras amarelas de enxofre e diziam que a máscara para se proteger do gás estava inclusa no pacote. Isso só fez com que eu achasse o passeio ainda mais instigante.

Porém, existe algo que eles deixam de falar, ou que fica por demais nas entrelinhas. Algo que quando começou a se revelar para mim, fez com que minhas observações se misturassem ainda mais profundamente com meus sentimentos.

Nesta cratera existe uma mina de enxofre ainda em funcionamento.

São três e meia da manhã e estamos prontos para descer os últimos 200 metros. É difícil respirar usando a máscara. Dion me explica que a prioridade no trajeto é dar espaço, tanto na descida como na subida, aos mineradores. Me sinto confuso. Começamos a caminhar de encontro à cratera. Com uma das mãos seguro o celular que utilizo como lanterna, enquanto a outra segue tateando as rochas pelo caminho. Este é o trecho mais difícil da trilha. Um caminho de pedra extremamente íngreme e escorregadio. Às vezes é possível ver penhascos em ambos os lados. Como assim existem mineradores que fazem esse trajeto no meio da noite?

A mina de enxofre foi aberta em 68, e é uma das últimas neste estilo ainda em operação. O lindo lago esverdeado possui níveis de acidez capazes de dissolver roupa e corroer metal. É o maior lago ácido do mundo. E se você adicionar na equação que estamos dentro de um vulcão ativo, isso transforma Kawah Ijen em um dos lugares mais tóxicos e perigosos do planeta.

Muitos turistas viajam pra lá justamente porque sabem disso. Mas outros não fazem ideia de onde estão se metendo. Eu era um desses.

Tão logo chegamos ao nosso destino, somos recebidos calorosamente por mais uma nuvem de gás. Ela nos esperava como um cachorro que aguarda seu dono depois de um dia inteiro de trabalho. Porém, neste caso, o animal se assemelha mais com uma hiena. Como estamos usando máscaras, o cheiro de cadáver é menor, mas agora são os olhos que sentem a pontada e começam a lacrimejar.

Diversos turistas se enfileiram assim que avistam as chamas azuis. Todos sacam seus celulares mais rápido do que os pistoleiros em filme de faroeste.

Está escuro e as labaredas dançam umas com as outras. É realmente magnífico.

Assim que chegam mais turistas, os fechos de luzes das lanternas atingem o local. Identifico diversos canos descendo pela encosta. Novamente não entendo nada. Eu só fui entender tudo isso com clareza quando fiz meu trabalho de pesquisa dois dias depois. Descobri que esses canos trazem os gases de dentro do vulcão. A mudança drástica de temperatura não só causa a combustão, como também ajuda no processo de condensação. Um líquido laranja pinga da extremidade dos canos formando diversas poças. Quando esse líquido endurece é que começa o trabalho dos mineradores.

Olho para o lado, e por entre as nuvens iluminadas vejo um minerador segurando com as duas mãos uma lança de ferro. Ele levanta os braços, fica nas pontas dos pés e atinge com brutalidade o chão amarelo. O local se racha. Ele repete perfeitamente o movimento outras três vezes.

Assim que termina, surgem outros dois mineradores que começam a retirar da região, com as próprias mãos, grandes lascas de enxofre. Eles organizam as pedras amarelas em cestos de palha que estão próximos do local.

Esse enxofre é vendido para diversas indústrias e utilizado principalmente para branquear o açúcar, fazer cosméticos e fertilizantes.

O incômodo se junta a uma inesperada excitação, e elas travam uma batalha dentro de mim.

A excitação se dá porque trabalhei durante anos como fotojornalista em jornais brasileiros. E esse tipo de situação de perigo faz com que a adrenalina se espalhe pelo corpo inteiro. Os movimentos ficam ágeis, os olhos mapeiam toda situação e o cérebro faz conexões entre informações que, segundos antes, passariam batidas.

Em um piscar de olhos estou do lado dos mineradores, todo trabalho deles acontece bem perto dos canos que cospem a fumaça tóxica. A maioria dos mineradores que vejo usam máscaras, mas alguns se protegem somente com pedaços de pano. Nenhum deles está utilizando luvas ou óculos.

Outra fumaça me golpeia, mas essa é bem mais densa do que as outras. É como se o calor quisesse derreter meu corpo. Eu me agacho e mesmo vestindo máscara, começo a tossir com força. Os mineradores também tossem, mas não param de trabalhar.

Fui do céu ao inferno em apenas 200 metros.

Os trabalhadores do vulcão Ijen possuem uma das profissões mais perigosas do mundo. O nível do gás sulfeto de hidrogênio desse local é 40 vezes maior do que qualquer limite de segurança. Os dois cestos que possuem os pedaços enxofre chegam a pesar 90kg. Eles carregam os cestos nas costas até o topo da cratera e, depois, descem com eles até a base do vulcão. Os mineradores fazem até duas viagens por dia e ganham em média 20 reais por carga. O salário desses mineradores é considerado um dos melhores nesta região ao leste de Java.

Trabalhar na mina de enxofre diminui exponencialmente o tempo de vida desses operários. Muitos vieram do campo e se arriscam para prover uma vida melhor para família e educação para os filhos.

Dentro deste cenário, turistas inspiram altas concentrações de gases tóxicos enquanto tiram fotos, posam com mineradores e fingem carregar cestos de enxofre nos ombros. No Youtube é possível ver diversos “influencers” que viveram essa experiência e filmaram esses trabalhadores da mesma forma como pessoas fotografam animais em um zoológico.

Me afasto da fumaça, cruzo uma ponte bamba de madeira e observo toda cena de longe. Penso no meu papel dentro daquele ambiente. Reflito sobre o que posso fazer com tudo o que testemunhava.

Não me considero uma pessoa desinformada, mas realmente fui surpreendido.

A sensação de tirar proveito do sofrimento humano me assombra. O “turismo de pobreza” não é novidade no mundo, mas eu nunca havia visto, ao longo de minha carreira, algo tão desumano. Durante a alta temporada, mais de mil pessoas visitam por dia o local.

Um minerador cutuca minhas costas e me oferece uma tartaruga feita de enxofre. Mais uma vez não entendo nada, e o Dion aparece para me ajudar. “Ele quer saber se você quer comprar uma lembrança de Ijen”. Agradeço e vejo que atrás dele tem um rapaz colocando enxofre líquido em forminhas de avião, caminhão, flor e outros formatos. Dessa maneira eles conseguem uma grana extra vendendo lembranças para os turistas, correndo o risco de se queimarem no enxofre liquido que segue fervendo dentro do balde.

O relógio marca 5:00 da manhã. Respiro fundo e começamos a subir. Em diversas ocasiões abrimos espaço para que os mineradores possam passar. A força que eles possuem é descomunal. Neste momento me lembro de algum documentário que dizia que o corpo humano sempre encontra um jeito de se adaptar ao ambiente. E esses operários são a prova viva disso.

Já no topo da cratera esperamos o sol nascer. O lago está coberto pela névoa de enxofre. Parece um filme de terror. Uma cor azul preenche todo espaço como se alguém houvesse tropeçado em uma lata de tinta. O nevoeiro não se dissipa e aos poucos as pessoas desistem e começam a descer rumo ao estacionamento. Sento e espero. Me sinto vitorioso e fracassado.

Não preciso mais usar a máscara. As pessoas seguem trabalhando como halterofilistas em dia de campeonato. Neste momento um vento frio começa a empurrar a fumaça para longe. Em poucos minutos um maravilhoso lago azul-esmeralda começa a surgir. É impressionante como tamanha beleza pode ser igualmente tóxica.

No momento em que ensaiamos nossa descida, restam poucos turistas na montanha. Começo a fazer perguntas ao Dion enquanto fotografo os mineradores organizando suas coisas antes de descerem.

Entre os mineradores também existem outros trabalhadores. Eles oferecem o serviço de transporte de pessoas. Mais um posto de trabalho gerado por esse turismo contraditório. Utilizando o próprio corpo, esses homens se dispõe a carregar os turistas montanha acima e abaixo, utilizando carrinhos de mão customizados e acolchoados.

Faço a descida de volta em silêncio. Um minerador nos ultrapassa carregando seus 90 kg de enxofre. Ele muda os cestos de um ombro para o outro como se estivesse carregando sacos de penas. Fecho meus olhos e um calafrio percorre minha espinha.

Eu me permito sentir. Tento entender a necessidade dessa pessoa. A angústia que a leva se colocar em uma posição de extrema exaustão. O desespero que a faz respirar diariamente um gás tóxico. O amor pela família que a leva para dentro de um vulcão em atividade. O sonho de ver seus filhos terem uma vida melhor.

Qualquer tentativa de empatia da minha parte não deve sequer raspar a superfície do que essas pessoas sentem diariamente. Estou com medo.

Imagine eles?

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