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Viajar a Longo Prazo
by Henrique Manreza access_time 8 min read

Veja a galeria com todas as fotos no final do artigo.

Eu cresci em uma cidade do litoral paulista cercado de praia, calor e pernilongos, e por mais que toda minha família morasse na capital, de alguma forma eu achava que iria morar naquela cidade pra sempre.

Nosso planeta sempre me encantou, mas eu via minha coleção de “National Geographic’s” quase um conto de fadas de tão distante. O mundo só começou a se ampliar de verdade com a chegada da internet em casa, eu era o “nerd que não saia do computador”, mas acho que nunca liguei muito pra isso. É louco como nossa mente pode também ser a nossa prisão.

Por causa dos amigos que fiz pela internet, eu comecei a viajar mais para São Paulo. O mundo foi se abrindo e por fim acabei me mudando pra lá para fazer faculdade.

Lembro do pavor que senti quando peguei o primeiro ônibus na capital. Em Peruíbe, qualquer ônibus te pegava e te deixava na mesma avenida. Não tinha erro. Mas em São Paulo a brincadeira era outra, o busão já saia do ponto fazendo curva. Eu senti um medo visceral de nunca conseguir voltar pra casa, e pode até parecer ridículo agora, mas não era na época. A recomendação da minha mãe foi: – Cola no cobrador e diz onde você vai descer. Pergunta pra ele a cada 10 minutos se está longe.

E assim eu fui… curva após curva, passo a passo, de viagem em viagem, expandindo meus limites.

Uma das maiores verdades é que depois que se vê algo, é impossível desver. E por ser curioso eu fui querendo ver e aprender cada vez mais coisas diferentes.

Hoje eu percebo melhor como funciono, enquanto alguns olham o inalcançável e vão atrás, eu tenho um modo de funcionar talvez mais pé no chão, um passo de cada vez. Posso demorar mais tempo para chegar do ponto A ao ponto B, mas eu sei que nunca fico parado.

Hoje, o tesão por aprender me trouxe direto para aquele conto de fadas que eu considerava extremamente distante.

Meu nome é Henrique Manreza e neste momento estou sendo picado por formigas no meu estúdio/escritório ao céu aberto diretamente de Bali, Indonésia.

Vim pra cá com a minha esposa Yara Nico, e ela ao contrário de mim, já possui o DNA de viajar no sangue. Filha deu pais brasileiros, ela foi “Made in Chile”, nasceu em Cuba e viveu até os 4 anos na França. Ela já nasceu carimbando o passaporte.

Mas indo direto ao assunto, nos últimos dias eu fiquei pensando o que leva uma pessoa a decidir viajar sem data de retorno. Será que ela sabe realmente onde está se metendo?

Para chegar até aqui a gente se inspirou em muitos viajantes e exploradores; mas viajar é definitivamente algo para se sentir, e só quando se está ali presente que se torna possível medir os impactos positivos e negativos da experiência. E mesmo assim não é tão simples, porque viajar a longo prazo estimula muitos gatilhos emocionais e tudo fica mais á flor da pele. Por isso curtir se auto-conhecer se torna fundamental.

E dá trabalho hein?

Começar já falando isso parece um baita papinho de #classemediasofre, e pode até ser, porque nos consideramos privilegiados de estar aqui. Tivemos uma boa educação, saúde, oportunidades… mas não acho que viajar a longo prazo está ligado a isso.

Acho que muita gente vê isso de viajar como um sonho, mas não é todo mundo que está afim de pagar pelo preço. E não estou aqui falando da passagem, hospedagem e coisas do tipo, mas sim o preço de ficar longe da família, de reduzir os custos, mudar de estilo de vida e principalmente de se expor pro desconhecido.

Porque é isso… a única certeza nesse tipo de viagem é tudo vai ser diferente daquilo que você planejou, e aí é que está a graça 🙂

Mas caso o preço esteja ok para você, eu recomendo muito o livro chamado Vagabonding, do escritor Rolf Potts (infelizmente só existe versão em inglês), ele detalha passo a passo como se organizar para viver isso algum dia.

Adiciono a isso o site do Work Away (https://www.workaway.info/) que para quem não tem grana e quer viajar, permite que você faça trabalhos ao redor do mundo em troca hospedagem e alimentação. É possível fazer isso até no Brasil se você tem interesse em testar como funciona.

Eu puxei o papo acima porque chegamos em Bali faz 3 semanas depois de uma experiência de 2 anos na Austrália. E da mesma forma como Melbourne foi bom por um lado, foi bem difícil por outro.

A partir de agora a gente começa a colocar em prática o que estamos planejando há 4 anos. Um projeto de sentir como nos adaptamos a trabalhar remoto e viajar pelo mundo ao mesmo tempo.

E foi isso que nos levou até a Austrália.

Escolhemos a terra do canguru porque queríamos aprender decentemente inglês e lá era um dos poucos lugares em que se podia estudar inglês e trabalhar. Eu precisava trabalhar em qualquer área se não quisesse torrar todas as economias, e lá fomos…

Entramos com um visto de estudante de 6 meses para estudar inglês e no fim ficamos 2 anos.

Como a Yara já trabalhava online e eu precisava organizar minhas habilidades para também trabalhar remoto, decidimos que eu faria um curso de empreendedorismo que prometia me dar a liberdade de durante um ano, trabalhar em meu projeto.

É aqui o momento em que a estrada se bifurca. Para mim os dois anos se passaram em um piscar de olhos. E para Yara tudo ficou em câmera lenta.

Eu estava tão imerso em atividades que parecia aqueles filmes em que a pessoa era enterrada viva: Eu trabalhava trocentas horas em um restaurante, estudava, tinha um monte de “trabalhos do curso” e quando tinha tempo livre estava cansado.

A Yara trabalhava atendendo brasileiros espalhados pelo mundo, e viu todas suas possibilidade de aprimorar o inglês depois do curso irem pelo ralo. Sabe quando a criança fica na beirinha do mar querendo pegar a espuminha e a maré recua? Essa era ela… a maré recuou literalmente todas as vezes que ela tentou algo.

Não é nada fácil, principalmente porque tem MUITA coisa para se adicionar na equação: Ausência de família e amigos, falta da sensação de pertencimento que acontece quando se está fora, as barreiras culturais, o clima e etc.

Quando você mistura tudo isso, o resultado pode ser um coquetel molotov.

Quando comecei a escrever esse texto eu tinha pensado em falar somente sobre o quanto o ambiente como um todo – clima, receptividade, natureza – pode alterar o nosso humor… porque nossa chegada em Bali foi realmente demais. Aqui tem uma pegada bem parecida com o Norte do Brasil: É quente, acolhedor e cheio de natureza. Na minha pesquisa eu tinha separado alguns artigos legais que falavam sobre isso, mas vi o texto ir por outro caminho e deixei, porque o ambiente pode até ter parte fundamental na regulação do nosso humor, mas não está sozinho.

Eu tenho que dizer que pessoalmente não posso reclamar da minha experiência na Austrália, me desafiei o tempo todo e aprendi demais durante os dois anos que estive lá. Hoje sei um novo idioma, fiz amigos, superei diversas barreiras emocionais, viajamos pela Austrália, juntei um dinheiro, vi cangurus, decidi com o quê trabalhar remotamente, estruturei meu projeto pessoal e ainda aprendi a lavar prato como ninguém.

Como a cereja do bolo, a gente se casou em Melbourne ❤️

Eu só tenho a agradecer a Yara ter me dado apoio durante esses 2 anos, ela me deu cobertura e tomou um tiro pelo time. Eu sei que não foi nada fácil pra ela… mas agora é hora de cuidar das feridas e nada melhor do que Bali pra isso 🙂

Viajar a longo prazo é um pouco disso. É como se fossem duas viagens combinadas, uma para fora e outra para dentro. Você paga por uma e ganha a outra de brinde, mas o brinde é como um kinder ovo, pode ter aquele brinquedo animal ou só um adesivo. E pra mim é isso que transforma o ato de viajar em algo tão especial, esse crescimento e expansão do nosso conhecimento sobre o mundo e principalmente, sobre nós mesmos.

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